sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Lúcifer e os lúcidos - Martha Medeiros (do livro Doidas e Santas) - #MomentodeReflexao


"Lúcido deve ser parente de Lúcifer 
a faculdade de ver deve ser coisa do demônio
lucidez custa os olhos da cara."


Estou embriagada pelos novos poemas de Viviane Mosé. Esta é só uma palhinha de Pensamento Chão, um livro essencial nesses tempos em que já sabemos que não convém circular de Rolex por aí, já sabemos que certos políticos nunca ouviram falar em honra, já sabemos que o verão vai ser sufocante e só nos resta olhar um pouco para dentro de nós, o único lugar onde ainda encontramos alguma novidade.
Essa visão inusitada que Viviane nos oferece sobre lucidez, por exemplo, é um convite para a reflexão. Em tempos insanos, de tanta gente maluca por vaidade, maluca por juventude, maluca por dinheiro, maluca por poder, os lúcidos destacam-se pela raridade. São aqueles que não inventam personagens de si mesmos, não se trapaceiam, não criam fantasias, ao contrário: se comprometem com a verdade. E se envolver assim com a transparência dos fatos requer uma integridade diabólica. Para olhar o bicho nos olhos é preciso ser bicho também. Enfrentar a verdade é quase um ato de selvageria. 
Mas que verdade é essa, afinal? É aí que o demônio apresenta sua conta, pois o lúcido tem que se confrontar com uma verdade desestabilizadora: a de que não existe verdade absoluta. Nossos pensamentos não estacionam, nossos desejos variam, o certo e o errado flertam um com o outro, não há permanência, tudo é provisório, e buscar um porto seguro é antecipar o fim: a única segurança está na morte, será ela nosso único endereço definitivo. Durante o percurso da vida, tudo é movimento, surpresa e sorte.
O lúcido faz parte do time - cada vez mais desfalcado - dos que se desesperam como todo mundo, porém de um modo mais íntimo e refinado. O lúcido organiza sua loucura, acondiciona o que está solto no ar, interliga várias ideias independentes para que, agarradas umas nas outras, não se dispersem, estejam ao alcance da mente. Quanto mais o lúcido pensa, mais percebe que lucidez plena não existe, o que existe são suposições, algumas até coerentes, o que nos mantêm no eixo. Lúcido é aquele que sabe que lucidez é uma falácia, e não pira com isso. Recebe a conta das mãos do demônio, calcula os ganhos e os prejuízos, e paga. Custa sim, Viviane, os olhos da cara, esse vício de pensar e repensar, pensar e compensar, pensar, pensar, pensar e morrer do mesmo jeito. Por isso achei tão interessante seu poema. Você matou a charada: Lúcifer é uma espécie de padroeiro dos lúcidos - e lúcido é só um outro nome para louco. O louco que tem a cabeça no lugar demais. 

AVISO: Caso VOCÊ tenha interesse em visualizar o livro na íntegra, basta clicar no nome da autora, e será direcionado direto a página do site que contêm outros textos.

3 comentários:

  1. Olá Silvana!

    Lúcido é aquele louco que tem a cabeça no lugar demais... identifico-me aqui. rsrsrsrs

    Abração
    Jan

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  2. Boa noite Silvana,
    Um texto para ler e reler.
    Muito reflexivo.
    Beijinhos e bom fim de semana.
    Ailime

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  3. Olá Silvana, sei que deve estar na correria de fim de ano.
    A BC Raio X final será quando?
    Bjs.
    Um belo texto que faz pensar.
    Creio que seja muito bom, vou ver.
    Abraços e bjs de paz amiga.

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